sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma Briga Real Entre Irmãos

 

No 1º de abril queria falar da…: MENTIRA! Contudo, mudei os meus planos. Ontem, aconteceu algo que não me acontecia há alguns anos. Eu e um dos meus irmãos (como sempre, o caçula…), simplesmente, brigamos. O motivo não poderia ser mais banal e o mais comum - ele tomou as dores de outrem que estava na sala, querendo dormir, enquanto eu ligava a TV. Ressalte-se: início de feriado, bem antes das 12 da noite, eu tendo acordado quase às 4 da tarde. Sinceramente, parecia-me muito cedo. E, além do mais, havia dois quartos disponíveis, sendo um deles suíte (para quem gosta de privacidade e silêncio, uma ótima opção).

Outrossim, meu irmão disse-me estar bastante calmo. Naquela ocasião, frisou mais de uma vez, parecendo que vacilava. E era verdade… que vacilava. No tutano, não estava nenhum pouco tácito. Também, confesso que o provoquei. Mas convenhamos: o assunto não era pertencente àquele abrutalhado, que entrou em conta na cena e naquela contradição calhou. Impertinente? De fato. Acintoso? Demais! Foi fátuo? Pois não, e por cômputo [não é trocadilho de Páscoa] próprio; como pouco duraria o arranca-toco (literalmente) de nós dois.

KY - Cadeirada

Não bastou mais que meia dúzia de palavras (pedidos “insistentes” para que ele se retirasse), e deflagrou-se uma explosão. Um pedaço de uma cadeira que se estilhaçou. Bem queria que não fosse veridicidade, naquele primeiro de abril. Por pouco até pensei que era para mim, aquela cadeirada. Mas sobrou para televisão.


Quando alguém entra numa Universidade, o mínimo que se espera dele é um convívio adulto com os demais. Talvez, mais do que nunca, pessoas adultas e polidas sejam espécie em extinção; porque não ando convivendo com muitas delas.


Em tal caso, por que tanta agressividade, que me espanta? Espancar a tevê, sem mais nem menos? Na sua incapacidade de lidar com a situação ou de argumentar de forma lógica, deve-se agir como primata? Por que raios o modo que encontramos para extravasar a raiva e o ódio é por meio dos socos, chutes, murros, mordidas (o que fiz!), beliscões e palavrões? É somente com esse afoitamento mais inculto que existe o saimento da zanga e da tensão? Será que o ciúme explica tanta rebelião entre os irmãos? Minhas perquirições são muitas.

Sei também, porém, que por mais que se gostem e que se dêem bem, os irmãos sempre terão uma dose de rivalidade entre si. Afinal, eles têm de dividir tudo, ou melhor, quase tudo: a casa, o amor e a atenção dos pais, o controle da televisão e o computador. Mas isso não é de todo ruim. Quando os sentimentos de raiva afloram, eles dão espaço para os bons sentimentos. Como assim…?

Então. Quando digo dividir quase tudo, é porque não precisamos dividir necessariamente as mesmas opiniões, tampouco a mesma personalidade. Se não há agressões físicas ou altercações descabidas como aquelas, se a briga não se tornar violenta em palavras ou em atos como aqueles, se aquilo se contrafaz ruim, mas não é… podemos tirar proveito disso.

No contexto em que vivemos, por exemplo, com laços afetivos tão frágeis, a aliança entre irmãos parece ser a única que promete durar por toda a vida - e poderia ser, portanto, antídoto contra a solidão. Por essa razão, sempre que os irmãos brigam, os pais padecem apreendidos. Os pais esperam que, desde sempre, os filhos compartilhem tudo, cedam a vez com tranqüilidade, sejam solidários. Acontece que nada disso é natural - tudo precisa ser experimentado e aprendido. A lição de que os irmãos precisam estar juntos, e não separados, é universal.

Pode-se garantir que todos os irmãos se amam e querem o bem de cada um deles, mas não querem demonstrar esse afeto tão bonito, pois como o convívio entre eles é grande e as semelhanças maiores ainda, acaba-se por criar uma intimidade que traz o alvedrio da tomada de certas atitudes que não são apropriadas. Como a de xingar o irmão, ou bater, ou dizer coisas que o machucam muito. Quem tem irmão, entende do que estou falando muito bem.

Irmãos brigam, irmãos disputam, irmãos rivalizam, irmãos competem e se estranham com freqüência, e as relações entre eles são, para muitos dos pais, motivos de grande preocupação. Os pais querem, apenas, fazer de tudo para que os filhos se dêem bem, mas não é fácil não. Além da cena terrível que é ver dois irmãos brigarem, fica para os pais um sentimento de amargura, de incompetência, de incapacidade de lidar com um problema que parece tão simples e tão banal. Sorte que os meus não estavam presentes, naquele acontecimento.

É normal que irmãos briguem?
De vez em quando é, durante a infância. Mas os que se engajam em conflitos violentos e freqüentes fatalmente experimentarão, no futuro, problemas emocionais prolongados como ansiedade, depressão e auto-estima baixa, independentemente da posição de vítima ou agente dos atritos. Isto foi evidenciado por um grupo de pesquisadores da Universidade de Michigan, comandados pela drª Sandra Graham-Bermann, quando do Encontro Anual da Associação Psicológica Americana.

Procurou-se provar que as relações conflituosas entre irmãos, marcadas por brigas intermináveis e impetuosas, poderiam deixar, como legado na fase adulta, problemas psicológicos duradouros. Descobriu-se que as famílias que parecem ter crianças menos agressivas são aquelas onde se pratica uma combinação de não-permissividade, não-punição e não-rejeição. Para evitar o desenvolvimento de situações potencialmente explosivas, estas famílias separavam as crianças antes que elas começassem a brigar; mas quando ocorria uma agressão, as crianças não eram severamente punidas. Cabendo, aqui, o velho bordão de que agressão geraria mais agressão.

Quanto a mim e o meu irmão, depois de o ambiente já estar no seu devido recalmão, paramos para reavaliar nossas condutas e nossa maneira de nos relacionarmos um com o outro. Metade dos problemas acabou por se dissolver naturalmente e, com isso, o ar ficou mais leve, as relações mais prazerosas e o ambiente colaborou com um leve sorriso. Um pouco tenso e medroso; tudo bem. Afinal, ainda era tão recente o que havia acontecido…

 

 KY - Cadeira Quebrada

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:




  1. Sabemos que agressividade é inerente ao ser humano, pois tem conotações construtivas e destrutivas. Ao mesmo tempo que pode interferir nas relações entre as pessoas e prejudicar a capacidade do indivíduo para cuidar de várias tarefas, pode, também, servir para aumentar todas as facetas da vida. É ingrediente da ambição; é necessária ao desenvolvimento de todas as habilidades; é necessária, também, quando vários potenciais de energia devem ser utilizados. Quanto à criança, lhe é necessária a fim de poder recorrer a esse manancial de energia para aprender a ler, calcular, escrever, brincar, andar de bicicleta e, mais tarde, alcançar sua autonomia.

    « Brasil Rotatório: Briga Entre Irmãos - As atitudes mais comuns dos pais e suas complicações (por Alfredo Castro Neto) » Acessado em 02/04/2010.


  2. Todos os irmãos, independentemente do tamanho, feitio, diferença de idades, e personalidades, brigam e zangam-se, ocasionalmente ou frequentemente. E isto é normal e saudável, desde que venha entremeado de períodos de relacionamento amistoso, de companheirismo e de convívio prazeroso. Pais que se desesperam e assustam com a agressividade do filho fornecem a este uma impressão errada de muito perigo. A sensação de perigo estimula na criança a agressividade, como defesa, e pode assim criar-se um sistema de retroalimentação, com o qual o brigar pode ir tornando-se cada vez mais violento, contribuindo para que a criança construa uma imagem de si mesma como muito perigosa. Tanto a criança, quanto o adolescente ou mesmo o adulto pode transpor as várias esferas da sociedade - escola, amigos, namoros, clubes, ambientes de trabalho, instituições ou mesmo nações - seus conflitos fraternos não resolvidos. Nestes ambientes, podem surgir modelos que se tornem padrões de comportamento, como submissão, triunfo, desvalorização... Todavia, do ponto de vista emocional, sempre é possível haver mudanças, elaborações, revisões que levam ao crescimento. Vale a pena lembrar que aprender a brigar e fazer as pazes, discriminando as brigas que valem a pena das desnecessárias, é uma valiosa conquista. Portanto, as brigas fraternas podem ter um sentido estruturante.

    Material preparado por Ingeborg Bornholdt, Alda R. D. de Oliveira, Maria de Fátima Freitas, Eliane Goldstein e Nazur Aragonez de Vasconcellos - membros da Comissão da Diretoria da Infância e Adolescência da SPPA e utilizado como fonte de pesquisa para a reportagem de Zero Hora- caderno Meu filho, de 30 de agosto de 2004. « SPPA - Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre: BRIGAS ENTRE IRMÃOS (porIngeborg Bornholdt) » Acesso em 02/04/2010.

 

 

 

 

Thúlio Jardim. Recife, 02 de Abril de 2010.

 

 

 

Referência

Brigas entre irmãos (por Rosely Sayão) - Matéria retirada do Jornal Folha de São Paulo, de 24/01/08.

 



Leitura recomendada:

Oficina de Psicologia: Quando os manos se zangam (por Patrícia Aguiar)

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