sábado, 13 de fevereiro de 2010

Tempo Contrito


“Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção”

 

É claro que a autoria do texto acima não é minha. Mas poderia ser. A poesia abaixo é que, vigorosamente, não - “não poderia ser!”. Pela simples razão de não ter nem três décimos da idade de que tinha o autor argênteo, ao resolver minutar sua experiência de vida. Nem uma centelha de entusiasmo criador, diria eu, de um Jorge Luis Borges, talvez o maior escritor que a região do Prata já teve. E, indiscutivelmente, seu nome está registrado em letras de ouro no panteão dos titãs da literatura.KY - Jorge Luiz Borges


“Ele nasceu, depois de morrer, porque ele viu que seu sonho era próspero. E nunca mais voltou”. Isto quer dizer, grosseiramente, que alguém realizou alguma coisa que ele sonhou antes de desencarnar. Muitas vezes Borges afirmou que possuía a convicção de que seu destino era ser escritor, mas que não esperava ser conhecido: “No fundo, queria ser um escritor obscuro, quase imperceptível”. A declaração parece paradoxal, levando-se em conta que o mesmo desejava o Nobel e a ele aspirou até o último momento. Essa não parece ser a postura de um autor que buscava o anonimato perfeito.


KY - Jorge Luiz Borges - Biblioteca De fato, era um funcionário incógnito de uma biblioteca desimportante em Buenos Aires; mas leu, leu, leu – como ninguém mais. Desenvolveu uma habilidade mágica de dizer as coisas simples e sabiamente. A frase exata denunciando o esforço da comunicação desejada até a última gota, como transparência e elucidação.


Diferem dele magníficos autores cujo entendimento só é possível após um esforço massacrante, que asfixia o leitor. Embora eles tenham em sua forma de poetar a sublimação e o arrebatamento, muito embora produzam textos de qualidade inegáveis, dignos de aplausos; comparações são inevitáveis. Borges está entre aqueles que conseguem aliar à competência estilística uma capacidade de comunicação impressionante, que não se esgota, que se abre sempre para significados precisos e ao mesmo tempo múltiplos. É desses autores preciosos que conseguem comunicar esplendidamente, que conseguem falar de maneira inequívoca às mentes e aos sentimentos.


KY - Janela da Alma Era iluminado e luminoso, apesar de ter ficado cego. Pois, mesmo estando sob a mais completa cegueira, Borges em muitos momentos foi profético, como quando comentou – durante o governo Alfonsin – a prisão e julgamento dos militares torturadores argentinos, responsáveis pelo desaparecimento de milhares de civis: “No que se crê é que vá haver sentenças severas, e depois de algum tempo uma espécie de anistia para esses homens. Então tudo não passará de uma farsa”. E, além do mais, a despeito de estar velho, de se achar encurvado sob o peso da idade e sob o signo da descrença, prosseguiu ditando palavras… Ele perdera a vista, como disse, apenas como leitor! – no ano de 1955. Aliás, a capacidade de enxergar além, permanecera incrível. O que o fazia lembrar uma frase de Steiner: “Quando algo te acaba, precisas saber como inicia”. Sempre dizia.


Assegurava freqüentemente o seu ateísmo. Admirava o pai, também ateu, e revelava que a felicidade mesmo só conseguia indiretamente, pelo trabalho. Solitário Borges. Falava da solidão como de uma aliada às avessas de sua criação, espécie de segunda companheira, sombra sempre em volta dos livros acumulados sobre a mesa, empilhados nas estantes: “Passo boa parte do meu tempo só, conheço poucas pessoas. Então fico planejando poemas, narrações […]”.


A revista mexicana Plural, fundada por Octavio Paz, trouxe em 1989 um poema intitulado “Instantes”, o qual teria sido escrito por Jorge Luis Borges no ano de sua morte. Segundo Alberto Manguel - ensaísta brilhante, nascido em Buenos Aires, mas atualmente cidadão canadense -, no capítulo “Falsificações” de seu livro “À mesa com o Chapeleiro Maluco – Ensaios sobre corvos e escrivaninhas” (Companhia das Letras, 2009), o poema estava precedido por um “meloso comentário” de Mauricio Iechanower, o qual apontava na obra um poder de síntese magistral. Pois bem, para o senhor Manguel, o poema é uma meditação idiota e sentimentalóide.


KY - Nadine Stair Três anos depois, ainda segundo o ensaísta supracitado, foi publicada uma nova tradução dos versos, no Queen’s Quarterly: “Moments”, traduzido por Alastair Reed, já experimentado na arte de traduzir o grande escritor argentino. Em 1999, o crítico Francisco Peregil (sigo com Manguel) revelou ao jornal El País, de Madrid: “O verdadeiro autor do apócrifo é uma desconhecida poeta norte-americana chamada Nadine Stair, que o publicou em 1978, oito anos antes da morte de Borges em Genebra, aos 86 anos”. O texto continuou a aparecer e ganhou o mundo.


Eu que sempre creditei a Jorge Luis Borges o poema, depois de pesquisar com afinco, no fim constatei a existência de uma grande polêmica quanto ao verdadeiro autor. Encontrei diversas versões em inglês, porém pessimamente traduzidas. Escolhi, dentre estas, uma que me pareceu mais palatável. Obviamente reproduzo o original (em espanhol) e acrescento ainda a versão no linguajar alemão – concedida gentilmente por Verinha. Não necessariamente nesta ordem…

KY - Jorge Luiz Borges - Ilustração Preto e Branco - 02

Quanto ao escólio de a prosa poética ser melosa, eu penso que talvez seja mesmo; ou me pareça em certos instantes. Mas é notório e irretorquível que o primeiro verso é um sonho! Não obstante o último alvitre… um pesadelo.

 

 


Doze dias antes de falecer, o escritor Argentino Jorge Luis Borges ( 1899-1988) “teria escrito” este texto-testamento que podemos tornar como uma impressionante lição de existir de um homem brilhante: 

 

  KY - Preso ao Passado

▬ INSTANTES ▬


"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. 

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos. 

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve. 

Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo…" KY - Arrependimento

 

 

▬ INSTANTES (VERSÃO EM ESPANHOL) ▬

“Si pudiera vivir nuevamente mi vida,
en la próxima trataría de cometer más errores.
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.
Sería más tonto de lo que he sido,
de hecho tomaría muy pocas cosas con seriedad.
Sería menos higiénico.
Correría más riesgos,
haría más viajes,
contemplaría más atardeceres,
subiría más montañas, nadaría más ríos.
Iría a más lugares adonde nunca he ido,
comería más helados y menos habas,
tendría más problemas reales y menos imaginarios.
Yo fui una de esas personas que vivió sensata
y prolíficamente cada minuto de su vida;
claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás trataría
de tener solamente buenos momentos.
Por si no lo saben, de eso está hecha la vida,
sólo de momentos; no te pierdas el ahora.
Yo era uno de esos que nunca
iban a ninguna parte sin un termómetro,
una bolsa de agua caliente,
un paraguas y un paracaídas;
si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.
Si pudiera volver a vivir
comenzaría a andar descalzo a principios
de la primavera
y seguiría descalzo hasta concluir el otoño.
Daría más vueltas en calesita,
contemplaría más amaneceres,
y jugaría con más niños,
si tuviera otra vez vida por delante.
Pero ya ven, tengo 85 años…
y sé que me estoy muriendo.”

 

ON LIVING (ENGLISH VERSION) ▬

"If I had my life to live over again,
I would try to make more mistakes next time…
I'd try not to be so damned perfect;
I'd relax more, I'd limber up,
I'd be sillier than I've been on this trip;
In fact, I know of very few things I'd take quite so seriously;
I'd be crazier… and I'd certainly be less-hygenic;
I'd take more chances… I'd take more trips…
I'd climb more mountains… I'd swim more rivers…
And I'd watch more sunsets;
I'd burn more gasoline,
I'd eat more ice cream - and fewer beans;
I'd have more actual troubles and fewer imaginary ones,
You see, I was one of those people who lived prophylactically and sensibly,
hour-after-hour and day-after-day;
Oh, that doesn't mean I didn't have my moments,
But if I had it to do all over, I'd have more of those moments,
In fact, I'd try to have nothing but wonderful moments, side-by-side.
I was one of those people who never went anywhere without a thermometer,
a hot water bottle, a gargle, a raincoat and a parachute;
If I had it to do all over again, I'd travel lighter next time.
If I had my life to live all over again,
I'd start barefoot earlier in the spring
and I'd stay that way later in the fall;
I'd play hooky a lot more;
I'd ride more merry-go-rounds, I'd pick more flowers,
I'd hug more children,
I'd tell more people that I loved them,
If I had my life to live over again;
But, you see, I don't."

 

EIN ZWEITES MAL (DEUTSCHE VERSION) ▬

“Könnte ich mein Leben noch einmal von vorn beginnen,
würde ich versuchen mehr Fehler zu machen.
Ich würde alberner sein, würde ganz locker werden,
nur noch ganz wenige Dinge ernstnehmen.
Ich würde entschieden verrückter sein und weniger reinlich.
Ich würde mehr Gelegenheiten beim Schopfe packen
und öfters auf Reisen gehen..
Ich würde mehr Berge ersteigen,
mehr Flüsse durchschwimmen und
mehr Sonnenaufgänge auf mich wirken lassen.
Ich würde mehr Schuhsohlen durchlaufen,
mehr Eis und weniger Bohnen essen.
Ich würde mehr echte Probleme und
weniger eingebildete Nöte haben.
Wie Sie bemerkt haben werden,
war ich eine von denen, die
vorsorglich, vernünftig und gesund leben,
Stunde für Stunde Tag für Tag.
Nun, ich habe meine verrückten Augenblicke,
aber, wenn ich noch einmal von vorne anfangen könnte,
würde ich mehr verrückte Augenblicke haben ?
genau gesagt, Augenblicke,
einem nach dem Anderen, und nichts mehr
von Plänen zehn Jahre voraus.
Wissen Sie, ich bin eine von denen,
die für alle Fälle Thermometer, Wärmflasche,
Gurgelwasser, Regenmantel und Fallschirm
bei sich haben.
Hätte ich ein zweites Leben,
ich würde sie alle zu Hause lassen.
Könnte ich mein Leben noch einmal von vorn beginnen,
ich würde in aller Herrgottsfrühe
barfuß in den Frühlingsmorgen laufen
und als letze sagen. jetzt ist der Herbst dahin.
Ich würde Hockey spielen,
und vom Karussell würden Sie mich
nicht mehr herunterbringen.”

 

JORGE LUIZ BORGES , aos 85 anos, SUÍÇA.
† 1988 – 86 anos na Terra.





Obras Completas de Borges:

 
· FERVOR DE BUENOS AIRES, 1923
· LUNA DE ENFRENTE, 1923
· INQUISICIONES, 1925
· EL TAMAÑO DE MI ESPERANZA, 1926
· EL IDIOMA DE LOS ARGENTINOS, 1928
· CUADERNOS SAN MARTÍN, 1929
· EVARISTO CARRIEGO, 1930
· DISCUSIÓN, 1932
· LAS KENNIGAR, 1933
· HISTORIA UNIVERSAL DE LA INFAMIA, 1935 - A Universal History of Infamy
· HISTORIA DE LA ETERNIDAD, 1936
· EL JARDÍN DE SENDEROS QUE SE BIFURCAN, 1941 - Haarautuvien polkujen puutarha
· SEIS PROBLEMAS PARA DON ISIDRO PARODI, 1942 - Six Problems for Don Isidro Parodi
· EL JARDIN DE SENDEROS QUE SE BIFURCAN, 1942
· FICCIONES, 1944
· DOS FANTASÍAS MEMORABLES, 1946
· UN MODELO PARA LA MUERTE, 1946
· NUEVA REFUTACÍON DEL TIEMPO, 1947
· ASPECTOS DE LA LITERARA GAUCHESCA, 1950
· LA MUERTE Y LA BRÚJULA, 1951
· ANTIGUAS LITERATURAS GERMÁNICAS, 1951 (with Delia Ingenieros)
· OTRAS INQUISICIONES 1937-1952, 1952 - Other Inquisitions, 1937-1952
· LOS ORILLEROS, 1955
· MANUAL DE ZOOLOGIA FANTASTICA, 1957 - The Book of Imaginary Beings (1969)
· LEOPOLDO LUGONES, 1957
· OBRAS COMPLETAS, VIII 1954-60
· LIBRO DEL CIELO Y DEL INFIERNO, 1960
· EL HACEDOR, 1960 - The Doer/The Dreamtigers
· ANTOLOGÍA PERSONAL, 1961 - A Personal Anthology
· MACEDONIO FERNÁDEZ, 1963
· EL OTRO, EL MISMO, 1964
· OBRAS COMPLETAS III, 1964
· PARA LAS SEIS CUERDAS, 1965
· INTRODUCCIÓN A LA LITERATURA INGLESA, 1965 (with María Esther Vásquez)
· LITERATURAS GERMÁNICAS MEDIAVALES, 1966 (with María Esther Vásquez)
· CRÓNICAS DE BUSTOS DOMECQ, 1967 - Chronicles of Bustos Domecq
· EL LIBRO DE LOS SERES IMAGINARIOS, 1967 - The Book of Imaginary Beings
· MUEVA ANTOLOGÍA PERRSONAL, 1968
· ELOGIO DE LA SOMBRA, 1969
· EL OTRO, EL MISMO, 1969
· EL INFORME DE BRODIE, 1970 - Dr. Brodie's Report
· EL CONGRESO, 1971
· EL ORO DE LOS TIGRES, 1972 - The Gold of Tigers
· Borges on Writing, 1973
· OBRAS COMPLETAS, 1974
· EL LIBRO DE ARENA, 1975 - The Book of Sand
· LA ROSA PROFUNDA, 1975
· PRÓLOGOS CON UN PRÓLOGO DE PRÓLOGOS, 1975
· LA MONEDA DE HIERRO, 1976
· LIBRO DE SUEÑOS, 1976
· ANDROGUÉ, 1977
· ASESINOS DE PAPEL, 1977
· HISTORIA DE LA NOCHE, 1977
· LA ROSA DE PARACELSO, 1977
· TIGRES AZULES, 1977
· OBRAS COMPLETAS EN COLABORARACIÓN, 1979
· PROSA COMPLETA, 1980
· SIETE NOCHES, 1980 - Seven Nights
· LA CIFRA, 1981
· NUEVE ENSAYOS DANTESCOS, 1982
· VEINTICINCO AGOSTO, 1983
· OBRA POETICA, 1923-1977, 1983
· Y OTROS CUENTOS, 1983
· LOS CONJURADOS, 1985
· TEXTOS CAUTIVOS, 1986
· EL ALEPH BORGIANO, 1987
· BORGES, EL JUDAISMO E ISRAEL, 1988
· BIBLIOTECA PERSONAL, 1988
· OBRAS COMPLETAS, 1989 (2 vols.)

 

Vídeos:

  • Instantes em espanhol:
  • Em português:

 

Referência deste artigo:

Arte Livre

 

 

Links Interessantes:


Biografias e bibliografia, poemas, ensaios, cartas, entrevistas. O que escreveram sobre JLB e mais…

Jornal de Poesia

Mi Buenos Aires Querido

UOL Educação

Literatura Comentada

 

Quanto a autoria do texto apócrifo:

Betty Vidigal

Jornal da Poesia / Revista Agulha

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