quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Neuronicídio

 

Os anos passam, as edições se renovam e o povão vai aderindo a esse arraial que já tomou conta do país, em pleno Carnaval. Na verdade, em pleno fim de Carnaval. Não bastasse esta quarta-feira ingrata ter chegado tão depressa, eu ainda sou contrariado com notícias da “Casa mais vigiada do Brasil”. Falo do Big Brother, programa que começou na Holanda em 1999 e fez tanto sucesso que hoje é televisionado em cerca de 20 países [para conhecer melhor a origem dele, basta acessar “Big Brother, a história que ninguém sabe”]. Tornara-se um estrondo lá, que repercutiu aqui! Tanto é, que está no ar, pela Rede Globo, desde 2002 e é um líder de audiência da emissora.

KY - Big Burro BrasilQuando passar a 4a feira de cinzas – dia em que na Igreja medita-se sobre nossa condição humana limitada e da necessidade que temos da graça d’@Ocriador – será forçoso voltar ao trabalho para se esfalfar, principalmente depois de tanto tempo “parado”, pois a gente vai se acostumando… Mas o pior não é bem isso, já que é muito respeitável, o pior mesmo e vergonhoso é ter de testemunhar o Pedro Bial naquela máquina-de-fazer-doido, tratando tudo como se fosse algo decisivo para o futuro da humanidade, aumentando audiência da Globo até as alturas, fazendo-a mãe de todos os alienados, que gastam uma fortuna votando… enfim.

Apesar desse visível bombardeio, na verdade eu não condeno a “Poderosa" por tudo. Não é intenção, aqui, criticar a televisão brasileira como um todo, muito menos uma emissora, mas analisar um fenômeno em particular. A idéia do reality show é coisa antiga, e esta onda que atravessou o Atlântico e assola o país não dará sinais de enfraquecimento tão cedo. Especialistas dizem que o homem sempre teve um pouco de voyeur. Acompanhar a vida de pessoas comuns… “apreciar” suas intimidades… saber os limites do homem, degustando dos seus problemas… ou simplesmente libar ao ver as brigas típicas dos romances engavelados… traz a total vigilância dos telespectadores, que se perdem nisso a ponto de sentir que conhecem os participantes intimamente e de torcer fielmente pelo seu preferido. 

KY - BBB, Charge das PessoasAs pessoas gostam de ser engabeladas! É isso. De tal jeito que dão risadas assistindo ao programa, choram se algo não lhes agrada, ou se enraivecem com as aleivosias de certos participantes. Agem, assim, como crianças entre os três e cinco anos de idade. Comparação porque é neste período que os pequeninos têm uma compreensão bastante maniqueísta do mundo, onde as situações, pessoas e bichos são vistos como totalmente bons ou totalmente ruins – não há meio termo.

 

Veementemente eu penso que a televisão, em vez de estimular o voyeurismo, deveria incentivar as pessoas a cuidarem da própria vida; lamento a dose cavalar de mau gosto contidas em algumas cenas. E acho, atualmente, o programa insípido e de um anacronismo insuportável.

 

Quanto à edição presente, uma das suas chaves foi dada explicitamente por Pedro Bial: “Este BBB tem um novo alfabeto. ABCDEF GLS…”. Um dos jogadores depois reforçou: “Este é o BBB da diversidade”. Por fim, a animação de Maurício Ricardo mostrou três robozinhos, um deles gay. A direção do programa selecionou um gay, uma lésbica e uma drag queen, todos assumidos – o que demonstra que as questões de gênero sexual terão papel predominante desta vez.

Há além deste grupo, o dos negros, dos sarados, dos pobres, dos ricos, dos bonzinhos, dos bad boys, dos inteligentes, dos burros… E esta variedade que se apresenta veio, a meu ver, mais para segmentar seus próprios participantes do que para promover algum tipo de tolerância ou de respeito às diferenças. Imagina só para a cabeça dos adolescentes – um dos públicos mais tiete do BBB – que já vivem uma fase difícil, uma crise de existência e a necessidade de fazer parte de um grupo, o que acarreta este tipo de comportamento…

KY - A Honestidade do Político Interessante seria se pudéssemos assistir, então, a um reality show com candidatos políticos, principalmente os concorrentes aos cargos de Presidente da República e de Governador. A segmentação aí seria maior: cada qual mais egoísta que o outro, defenderia o próprio partido, evidenciando os seus interesses implícitos, com a mesquinhez explicitada inevitavelmente. O que não faltaria seriam farsantes, concomitante as nossas gargalhadas… Eu sugeriria, inclusive, que fosse elaborada uma prova na qual, para se conseguir o almejado título de líder, o candidato tivesse de demonstrar ser honesto, probo e incorruptível. Para os políticos que estamos acostumados a conhecer, isto seria pior que permanecer no inferno e diante do Erebus. Dor superior a de uma faca sendo cravada no peito. Acho até que alguns enlouqueceriam ao extremo e tentariam consumar este ato, por acharem mais fácil!

Quem dera… não existissem incultura, ociosidade e júbilo naquilo tudo. Eles estão atrelados em algo que não estimula em nada o raciocínio. E eu vou um pouco mais além do que falou meu amigo Thúlio, em seu artigo intitulado “Tempocídio”: digo-lhes que não é só uma perca de tempo tal programa, como de certo é a morte dos nossos milhões de neurônios. É Tico e Teco, os primeiros, se matando - neuronicídio! Somente me parecendo atilado aquele que não presencia esse treco onde as conversas fúteis extrapolam, onde os palavrões de baixo calão são transmitidos via internet e se infiltram nos lares, invadindo e contaminando a mente dos internautas e dos teventes. Tricô é mais empolgante! Rezo um terço para que troquem aquele negócio do tablado.

Pois o BBB, para quem não sabe, é algo tão falso. O que Muniz Sodré chama de ethos simulado. Troço de trouxa! No programa, tudo é cheio de glamour e “espetacularizado”… a realidade é completamente inventada. Ou seja, é uma realidade que só existe lá. Segundo Sodré, a televisão “[...] cria uma outra realidade e amplia sua própria realidade, onde o indivíduo imerge. Então não é apenas a questão do efeito de conteúdo que está em jogo. O que está em jogo ali é uma administração do tempo do sujeito, administração das consciências, a criação de uma vida vicária, substitutiva”.

Independente das pessoas agirem naturalmente ou não, as situações vividas dentro daquele quadro não são reais. Na vida real – salvo os que cometem crimes [acrescente-se: ninguém será encarcerado senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente…] ou quando se fala metaforicamente – nós não estamos presos, não temos que enfrentar provas de resistência [pelo menos, não aquelas brincadeiras de criança!] para sermos líderes, não temos que eliminar um colega e, além do mais, por que deveríamos chamar de “heróis” seres que passam alguns dias aboletados numa casa confortável, participando inclusive de sessões de sexo sob os edredons e de inúmeras festas, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão de reais por tudo isso?! A que tipo de risco eles estão expostos, digam-me!? Talvez aos paredões? À rejeição do público? A não ganhar o prêmio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito, da noite pro dia!? Sinceramente…

O ápice da idiotice daquilo - sejamos honestos - são as festas com um clima extremamente forçado de alegria, bebedeiras, paqueras, esfregação e “dancinhas” toscas. Nenhum dos confinados está em uma "casa", mas em um "palco". Não num palco da vida com todos os seus problemas e desventuras, mas num palco recheado de purpurina, abdominais, “coxudas” e “bundudas”, vadiagens e gestos obscenos, muito álcool, DJs e, o pior de tudo, com o comandante desta “nave espacial” chamando os “tripulantes” de “heróis”. Só falta dizer também que estas antas são imortais, quando estão muito mais para bobos da corte. A diferença é que não há enredo, nem peça, nem filme. Nenhum suposto fundamento para que possamos “observar” o comportamento humano.

Há uma farsa na qual se reserva lugar para tudo, menos para o pensamento. Para que pensar ali dentro, se todos querem ver o circo pegar fogo? [Entendeu o porquê de “bobos da corte”…?] Há quem discorde do que eu digo até aqui, e acastele aquele lugar e seus “atores”. Mariana, uma fã do programa, fez o seguinte comentário numa página da web: “[…] O BBB tem como única finalidade o entretenimento. Ponto. Para isso, selecionam pessoas interessantes e diferentes para que o programa se torne atrativo aos olhos do público. Se eu estiver interessada em ficar conectada com o que está acontecendo no mundo, assisto ou leio jornal. Se eu quero ampliar o vocabulário, aguçar a imaginação e a criatividade e aprender coisas novas, leio um bom livro. Caso o meu objetivo ao assistir televisão seja aumentar o conhecimento sobre diversos assuntos, procurarei um programa que me forneça tal conteúdo…”

O que ela não acrescentou é que os programas que fornecem “tal conteúdo” são escassos e, ordinariamente, passam em horários totalmente inapropriados – em geral durante a madrugada. Eu, particularmente, só queria menos afetação, menos apelação… Naquele canal, a sustação de tantas besteiras. E, por isso, concordo plenamente com outro internauta que disse – na mesma página que Mariana – ser nessas horas em que vão ao ar os BBB’s e afins, que ele presta agradecimento e diz obrigado a Deus por ter um PC no quarto, “beeem” longe da televisão, e com um modem permitindo o acesso à internet. Espero que de banda larga, mas até se for discada, vale mais a pena.

 

Posto que seja aquele um espaço especialmente dedicado à grosseria e ao grotesco, ao preconceito e à ausência de conceito, à linguagem vulgar e à vulgaridade sem linguagem.

 

KY - BBB, Big Bosta Brasil EUA, Inglaterra, Alemanha, todos esses e outros fortes países do mundo têm programas estúpidos em suas programações também. Porém, nunca na história deste país se viu tanta cultura inútil no televisor. Tal que não me faltam azos para argumentar contra e advertir àqueles que são expostos por um período - ainda que curto - as suas ondas… acabam se tornando, certamente, um pouco mais tontos. Contra tudo que digo, muitos ainda insistem: é o triste cenário a que chegamos. Não só nesta terra brasilis, mas também na periferia da humanidade tola em admirar as qualidades fúteis, a falsidade, a trapaça, a escolinha da maldade e as insinuações grotescas de falta de vergonha, dignidade do tudo pelo dinheiro e material, isto é constatado.

Ser homem meritório é não fazer parte deste território de dementes. É o exemplo do baiano Antônio Barreto. Além de escrever o cordel “Big Brother Brasil, um programa imbecil”, ele se expressou igualmente bem ao versar sobre a imponente Globo, este programa e os seus telespectadores: “A emissora é influente, consegue controlar o público, que não preza pelo hábito da leitura, pelo bom gosto. São pessoas dominadas pela estética da beleza, pelo filme de violência. Então é facil para a Globo criar um programa desse e ter sucesso". Impossível contestar…

Para ele, contudo, o BBB não deveria acabar e, sim, ser reformulado, propondo e levando para o público discussões a respeito de temas relevantes para a população, a exemplo da educação, violência, preconceito, economia e política, dentre outros temas. "Seria interessante se todas aquelas pessoas pudessem sentar numa mesa redonda e discutir temas importantes, ao invés de expor o corpo, a sexualidade, a futilidade. Os homossexuais, em vez de beijar na boca, poderiam discutir o quanto são discriminados. Eu mesmo sou contra a homofobia*. Poderia ser aberto para o público, mas de uma outra maneira. Se fosse de outro jeito, não faria o cordel, não criticaria a Globo e o BBB".

Portanto, é possível fazer diferente! Os participantes poderiam se unir em um projeto comum e solidário (talvez para a melhoria da casa, quando revelariam suas habilidades); poderiam discutir assuntos de interesse público (como tem acontecido em algumas novelas, da TV Globo, em relação às drogas, aos portadores de necessidades especiais, provando que entretenimento não significa alienação); poderiam apoiar campanhas de esclarecimento etc.

Há mil maneiras de enriquecer o programa. Contudo, os "atores" são mal aproveitados e compelidos a brincadeiras que qualquer criança saberia tornar mais criativa (quando não são humilhados). Os espectadores torcem para presenciar crises nervosas, violência verbal, acusações mútuas. O objetivo é a derrota do semelhante, sua queda, sua cara no chão. Nenhum arremedo de cumplicidade. Nenhum trabalho conjunto. Nenhum talento descoberto. Do outro lado, o público vota tanto, afinal, em quê?

A embalagem ficou ótima. Uma das explicações para isso e o tal sucesso dos realities shows é o fato deles apelarem para a angústia do anonimato que nós, habitantes das cidades, sentimos em maior ou menor grau. Na multidão, somos nada: sensação que nos oprime principalmente quando a ineficiência dos serviços públicos atesta nossa desimportância; quando nosso trabalho é insatisfatório; quando nossos horizontes culturais são limitados e não entendemos como o mundo funciona.

Algo no produto, porém, passa a impressão de que o olho do Grande Irmão imaginado por Orwell em seu "1984" não está exatamente voltado para os indivíduos enclausurados na mansão, mas para quem os assiste: um vigilante que procura saber quem somos nós, o que fazemos, que valores prezamos e que desejos ocultos temos, para, assim, nos oferecer uma catarse sob medida. Mas, afinal, seria isto realmente uma maneira de libertação - liberação de nossas recordações mais recalcadas? O que você pensa de ser você o vigiado nesta história, não sabia? Não seria, no mínimo, um contra-senso este fato citado, e não saber o que salta aos olhos? E como você se sentiu, colega, neste questionamento meu de agora: impressionado(a) ou pressionado(a)?

KY - BBB, de Olho em Você E mais: O que você acha do Big Brother? É ético? É a realidade? É cultura? Dê sua opinião…



Low. Recife, 17 de fevereiro de 2010.



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* HOMOFOBIA – O fato é que, por mais medíocres, medonhos e tapados que sejam os BBBs e seus primos pobres do gênero reality, sejam os da mesma emissora ou das demais, uma categoria de gente que surge em oposição a estes é talvez mais assustadora e espantosa. Arrebatados de surtos de conservadorismo e coisas que tais, senhores e senhoras supostamente do bem e zeladores das morais e dos bons costumes do mundo, saíram esta semana de suas catacumbas medievais. Atribuindo a si mesmos a tarefa de empunhar as vassouras da moralidade do mundo, desejam fazer uma faxina e extirpar da sociedade todos os males comportamentais. A limpeza deveria culminar com a televisão sendo condenada eternamente ao silêncio verbal e imagético. Não raro, essas pessoas guardiãs da honra da espécie assustam mais que os personagens a quem pretendem condenar.

 

Malu Fontes. Jornalista, doutora em Comunicação e Cultura, professora da Facom-UFBA.

 

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Sinonímia encontrada em outros blogs (algumas palavras escritas ou modificadas por mim): 

KY - Big Bosta BrasilKY - BBB. Big Bosta Brasil

- Bundas Bonitas Bastam
- Baita Besteira Brasil
- Bang Bang Brazil
- Big Bosta Brazil
- Big Broxa Brazil
- Big Baixaria Brazil…
- Bando de Bestas Brasileiros
- Bruxas, Bêbados e Boiolas
- Bizarrice, Burrice e Besteirol 
- Boçalidade, Babaquice e Baboseiras
- Big Bichas Brazil


OBS.: — Eu não tenho preconceitos, respeito o ser humano do jeito que ele é!

 

 

 

 

 


 

PARA SABER MAIS


Leia “Assim somos nós…” texto de Artur Salles Lisboa de Oliveira. Notícia de Terça, 27 de Janeiro de 2009 (se mantém atual). Além dos links abaixo.

 

Artigos Interessantes:

Gestão Universitária / Companhia da Escola: "BBB,  Um desserviço"
10 Coisas Idiotas Que Você Vai Ouvir Durante o Big Brother

2 comentários :

Hélio disse...

Gostei muito do texto,Low!É bem verdade que os assuntos são tratados "como se fosse algo decisivo para a humanidade". Gostei especialmente da alusão ao texto do Orwell.Referência muito cabível e feliz. Tudo de bom!!!

Low disse...

Grato, amigo. Espero que a leitura não tenha ficado cansativa, por ser longa. Valeu por ter gostado!

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