domingo, 14 de fevereiro de 2010

Amigos Imaginários

 

A observação de um infante brincando sozinho, em alguma parte, pode trazer uma engraçada surpresa: um amiguinho imaginário. “Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação. O curioso é que também adolescentes e adultos, em especial idosos, usam esse recurso para superar fases difíceis”, afirma Inge Seiffge-Krenke ­– psicóloga e dirigente do Departamento de Psicologia do Desenvolvimento do Instituto Psicológico da Universidade de Mainz na Alemanha.

 

Hoje é uma data especial. Uma das datas em que se comemora o Dia da Amizade. Sim, pois há várias: As oficiais, expostas em calendários – como o dia 20 de Julho (Dia Internacional do Amigo) e o 18 de Abril (aqui no Brasil) –, e as oficiosas – como as definidas por mim e por outros colegas como eu, isto é, TODOS OS DIAS.

O dia 18 de Abril, vale lembrar, também é o Dia Nacional do Livro Infantil. Assunto de suma importância para se tratar, ao qual reservo especial atenção e falarei um pouco sobre a literatura infantil neste artigo, apesar dele ser mais voltado ao tema expresso no título. Em outras oportunidades, certamente, aprofundarei-me sobre este que é co-responsável pela construção do nosso caráter: o livro. Haja vista que seja indiscutível o quanto o “grau de leituras” (entenda-se: alfabetismo) nos afeta profissionalmente e na vida cotidiana, e  desde o começo, quando ainda éramos crianças a explorar o mundo…

Agora, sobre amizade convenhamos: existe coisa melhor e mais imprescindível?! Segundo as definições do Dicionário Aurélio, amigo é aquele ligado a outro por laços de amizade. Em que há amizade. Amizade, portanto, é um sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre pessoas que geralmente não são ligadas por laços de família ou atração sexual. Mas, não podemos, nos resumir por aí. Há diversas categorias a se falar…

KY - Amigo ImaginárioNo tempos hodiernos, sabemos que conversar com gente que nunca vimos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre os 3 e 7 anos de idade, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Mesmo parecendo boas tais amizades para os seus rebentos, surgem fatalmente questionamentos. Um dos principais é se devemos ou não tentar convencê-los a abonar suas fantasias.

Vamos, então, fazer uma visita inicialmente ao cérebro de uma criança [ou “crionça”, como dizem], demonstrar um pouco de nossa empatia. Imaginar como que ela seria, caso estivesse em um ambiente cheio de colegas e repleto de brincadeiras, jogos e aprendizado lúdico… Seria satisfeita em suas necessidades de reconhecimento social e relacionamento interpessoal, tranqüilamente, isto ela seria. Pois estaria sendo alimentada por essas vivências, o que facilitaria toda a construção das interligações necessárias ao seu desenvolvimento sadio.

Se, entretanto, ela se encontra num canto fechado, sozinha, sem colegas que possam compartilhar esse aprendizado, ela poderá tomar dois caminhos opostos. Um muito perigoso para a sua formação, que seria a acomodação ao insulamento ou ausência, com a possível montagem de uma individualidade excessiva, de uma personalidade anti-social. O outro - mais adequado - é o da criatividade, montando histórias e dramatizações, transformando brinquedos em personagens reais, ou até visualizando amigos imaginários que serão seus parceiros nas diversões, nos jogos, nos passeios e em todos os demais momentos de sua vida.

KY - Calvin & Hobbes Quero falar mais deste segundo caso, como bom fã de Calvin e Haroldo (Calvin & Hobbes) que sou, posto que isto me rememore uma criança de grande criatividade (criativa até demais), que tem o hábito de conversar com seu amigo imaginário… Não imaginário propriamente dito, posto que esse até exista (?): é seu bichinho de pelúcia favorito e companheiro de sempre, o “tigre”. Na verdade, o autor Bill Watterson diz que se inspirou em sua gata de estimação para criar Haroldo, e, no entanto, isto não é certeza, mas me dá base para proferir que ele também conversava com o seu bicho de estimação. Teria sido Watterson, daí, um criança solitária? Penso que não, pois em nenhum momento afirmei que crianças socializáveis não eram criativas. Apenas disse, que as demais, eram mais passíveis de desenvolver uma inventividade grande para suprir a carência de amigos ou seja lá o que estivesse faltando.

Então, se o assunto do momento é sobre amigos imaginários, por que eu deveria me ater às amizades físicas, apenas? Por que não falar das amizades que nos acompanharam em nossas fantasias e aventuras de infância, mas que, com o passar do tempo, voltaram a ser “bichinhos de pelúcia”? Ou somente lembranças de uma fase boa…? KY - Surfando na Net

Estava surfando em matérias e pescando tiras a respeito do assunto, quando encontrei essa de baixo, em um outro blog, com o título “A tira mais triste de todos os tempos”. E, confesso, é triste sim… porque crescer vem sendo tristeza.

KY - Calvin & Haroldo

Mas por que crescer vem sendo tristeza, em alguns termos, desde sempre? Porque quando crescemos, nós nos forçamos a acreditar apenas no que nos dá provas, no que é argumentativo, ou adquirido com o empirismo. É próprio do ser humano adulto querer crê apenas no que se pode ver e ter e, principalmente, comprar… Mas… não era mais bonito quando havia a certeza de que, no final, o mocinho salvaria a princesa? E se tínhamos lá nossos amigos imaginários, não era com estes que, mesmo amedrontados, enfrentávamos os bichos-papão e os monstros do armário que nunca surgiam do armário, mas estavam sempre ali nos assustando? Por sinal, eram poucas, senão as únicas, coisas que nos metiam medo naquela época… até porque sabíamos que nosso amigo nunca nos abandonaria e lutaria junto. Na pior das hipóteses, correria junto… contudo sempre estaria conosco.

 

Não, eu não tenho mais amigos imaginários, a bem da verdade, não me lembro se um dia os tive. Provavelmente sim, mas prefiro não recordar… não sei como reagiria hoje [risos]…

 

Voltando à tira a esquerda, Calvin, que nunca faz seus deveres antes do prazo e prefere brincar a estudar (diga-se: criança normal), preferiu naquele momento fazer sua lição a dar atenção a Haroldo. Isso porque sua mãe, de alguma forma, o fez se concentrar em outras coisas que não Haroldo, tornando mais interessante (diga-se: importante) a lição. O pensamento do cartunista foi dizer que ela o fez tomar algum tipo de pílula… milagrosa!? Remédio de esquizofrênico??? Não vamos chegar a tando. De todo jeito, o rapaz se esquecera da "existência" do seu amigo, o que significou a “morte” do Haroldo, um fato realmente triste...

É triste, mas também podemos entender que é belo. Lendo depoimentos de outros fãs de Calvin & Haroldo, descobri que muitos chegavam a chorar pela seriedade desse momento que enfim invadiu a vida de Calvin. Bem, não é bem minha intenção aqui fazer com que as pessoas chorem de tristeza [talvez de emoção… ;p]. Então, deixo avisado que a tira em questão não é oficial! Não foi feita por Bill Watterson, mas por alguém que, infelizmente, não se sabe o nome. Se desejar ver outras mais, acesse Depósito do Calvin. Afinal, não é minha intenção também ficar só a falar do Calvin, do Haroldo, ou mesmo de Bill Watterson.

 

Quero me aprofundar nas questões do imaginário pueril e do que esteja nos recônditos da nossa mente adulta, aparentemente debelado.

 

Tanto é que - não raro - pais, professores e terapeutas incomodam-se não apenas com o fato de as amizades imaginárias serem mantidas por um longo tempo, às vezes por anos, mas também com a nitidez com que as crianças parecem ver seus amiguinhos. Isto, portanto, seria a comprovação de uma algema que os prendem aos escrúpulos do amadurecimento? Será que é o nosso remorso, por termos nos tornado velhos, antes do tempo? Sem saber, nem quando mais não seja, que os pequenos precisam desses parceiros e, mesmo os tendo, discernem corretamente que eles não são reais e que só existem na imaginação, tão fecunda!?

Ou seja, com pureza: essas criações psíquicas podem ser claramente diferenciadas de fantasias patológicas, que ocorrem, por exemplo, nas psicoses. A criança nunca se sente indefensavelmente dominada pelo amigo que criou – pelo contrário, pode modelar, modificar e manipular sua invenção como quiser. E também determinar a duração desse “relacionamento”. Essa pessoinha, cunhada na fantasia de crianças, aparece sobretudo em filhos únicos ou que tem irmãos bem mais velhos, ou, ainda, nas que não chegaram à fase escolar. Normalmente, quando a criança começa a participar de atividades socializantes com coleguinhas de sua idade, o amiguinho imaginário vai fazendo visitas cada vez mais remotas até ser totalmente esquecido. Por mais que os adultos brinquem com as crianças, não suprem a necessidade que elas têm de se relacionarem com seus “iguais”.

Por isso, os pais devem respirar aliviados… pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amigos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema, alguns anos a fio. E há um ponto em comum: todos concordam que os “invisíveis” amiguinhos estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Certos pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

Os acompanhantes invisíveis são freqüentemente crianças da mesma idade de seus criadores. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Os pequenos igualmente dão vida a um bicho de pelúcia ou a uma boneca de que gostam muito ao lhe atribuírem personalidade própria. Com isso, e com já falado, os amigos visíveis tipo Hobbes (ou Haroldo na versão brasileira) – o tigre de pano dos quadrinhos americanos Calvin e Haroldo – também se tornam companheiros imaginários. Os estudos nos quais esse artigo se baseia concentram-se, porém, no fenômeno dos amigos totalmente invisíveis e semelhantes aos seres humanos.

Algumas crianças e jovens iniciam essa amizade quando se sentem sozinhos. E companheiros imaginários podem ter funções variadas. Aparecem principalmente durante mudanças drásticas: quando a mãe ficava grávida ou um irmãozinho nascia; quando um dos pais estava ausente devido a freqüentes estadias no hospital ou depois que uma pessoa considerada referência afetiva morria. Também no caso de separação dos pais ou de amizades que se rompiam, por exemplo, devido a uma mudança de casa, os amigos imaginários ajudavam na superação.

De tempos em tempos, assim, crianças e adolescentes compensam a realidade com a ajuda providencial do parceiro imaginário e combatem sentimentos de abandono, solidão, perda ou rejeição. É possível, desse modo, desfrutar de um relacionamento de amor e apoio, além de companhia – independentemente das circunstâncias externas. Como conseqüência, essas figuras quase sempre desaparecem, tão logo a criança encontre amigos reais ou se adapta à nova situação.

Essa função pode explicar por que também pessoas idosas têm eventualmente amigos imaginários – o que até agora quase não foi estudado. O psiquiatra canadense Kenneth Shulmann relatou em 1984 o caso de três pacientes com mais de 80 anos que haviam perdido pessoas queridas recentemente. Os três fizeram seus companheiros falecidos reviverem em sua imaginação, embora evitassem falar sobre o assunto com outros, o que foi avaliado por Shulman como um indício de que eles tinham consciência da natureza ficcional de suas criações. Provavelmente, isto acontece com muito de nós, todavia fica ocultado das estatísticas, pela mesma razão anterior.

KY - Amigo Imaginário do Adulto

PRAZER E COMUNICAÇÃO
Em seus extensos estudos sobre o desenvolvimento da inteligência infantil, o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) também deparou com os amigos imaginários. Ele os interpretou como uma forma especial do jogo simbólico. Piaget relatou sobre o companheiro imaginário de sua filha de 3 anos, Jacqueline. O personagem dominou a atenção da menina durante dois meses, ajudava-a em tudo o que estava aprendendo, estimulava-a a respeitar regras e a consolava quando estava triste. De repente, desapareceu.

Piaget não atribuiu a criação do amigo de sua filha à solidão ou a condições de vida difíceis. Via nele muito mais uma prova de criatividade e prazer comunicativo. Essa idéia foi comprovada mais uma vez em 2008 por um estudo dos psicólogos Anna Roby e Evan Kidd, da Universidade de Manchester. Eles testaram a capacidade lingüística de 44 crianças em idade pré-escolar e escolar. Aquelas que tinham um companheiro imaginário costumavam se expressar melhor e se colocar no lugar do interlocutor, o que faziam inclusive com prazer. Apresentando, assim, mais qualidades sociais - como a empatia - do que aqueles sem um acompanhante invisível.

Estudos sobre comportamentos lúdicos comprovam que principalmente crianças maduras e psicologicamente estáveis têm amigos imaginários.

Exposto isso, o sociólogo britânico David Finkelhor, da Universidade de New Hampshire em Durham, nos Estados Unidos, foi um dos pesquisadores que demonstraram que quanto pior for o estado físico e psíquico das crianças, menos serão capazes de brincar. O abuso ou a negligência fazem com que a imaginação se atrofie e inibem a propensão ao jogo – em geral, essas crianças não criam acompanhantes imaginários.

Geralmente parceiros imaginários tomam forma a partir do terceiro ano de vida, quando já é possível diferenciar entre o eu e o outro. Para estudiosos como Sigmund FREUD e Jean PIAGET, a base do desenvolvimento afetivo e da interpretação do mundo residiam na primeira e na segunda infância. Conseqüentemente, se os três primeiros anos de vida são fundamentais para o futuro do indivíduo, não podemos ignorar, justamente neste período, a extrema importância que tais “companhias” terão.

E em 1988, o psicólogo Paul Harris, da Escola de Medicina de Harvard em Boston, acompanhou 221 crianças com o objetivo de detectar quão bem podiam separar a fantasia da realidade. Por volta dos 3 anos [mencionei inclusive no primeiro parágrafo e, estou enfatizando aqui e um pouco mais adiante falarei também…], não havia mais confusões entre pessoas reais e inventadas, fossem seres imaginados por elas mesmas ou figuras de contos de fadas, histórias ou filmes.

Daí porque diversos estudos sociológicos já discutiram que o leitor infantil passa a ser considerado a partir dos séculos XVII e XVIII, grosso modo. Até então, acreditava-se, na Europa, que a criança era um ser à semelhança de um adulto em miniatura. Suas especificidades de desenvolvimento e maturidade não eram entendidas como hoje. Naqueles tempos, a partir do novo projeto social e econômico, os filhos da classe social que se fortalecera desde o fim de Idade Média – a chamada burguesia – se tornam alvo das preocupações educacionais e, só então, surge a perspectiva de um leitor ainda não adulto, para o qual deveriam desenvolver um mundo de literatura e referências bastante específico.

Foi naquele momento, juntamente com as escolas e com os métodos de ensino, que surgiram os chamados livros para crianças. Inicialmente, tratavam-se de obras adaptadas de livros para adultos ou de “contos populares” (fábulas, contos maravilhosos, mitos, lendas…). Havia os que também eram “encomendados” por instituições a determinados escritores, com o objetivo de ensinar “virtudes” e “comportamentos adequados” às crianças da nova classe dominante. Nascia a chamada literatura infantil que, nos séculos seguintes, cresceria e tomaria um espaço só para si – apesar de, historicamente, ter sido menos valorizada do que a considerada “literatura para adultos”.

Constatou-se, ademais, que a fantasia e a criatividade se modificam no decorrer do desenvolvimento. Crianças em idade pré-escolar freqüentemente mostram aptidão para o chamado jogo ilusório ou ficcional, no qual partindo de poucos traços um objeto ou um personagem são construídos. Assim, uma fileira de cadeiras se transforma, por exemplo, em um “trem” num piscar de olhos.

Na idade escolar a criatividade aumenta e, na adolescência, alguns jovens começam a escrever diários - como eu neste diário virtual [novamente a questão: será que eu tive amigos imaginários?!], uma forma muito particular de vivenciar a própria criatividade e imaginação. Para atingir esse estágio é necessário primeiramente uma compreensão madura da intimidade: crianças ainda não diferenciam entre informações “privadas” e “públicas”. Somente por volta dos 10 anos é possível compreender o que significa privacidade. Dessa fase em diante as informações sobre a própria pessoa ou sobre outros podem ser conscientemente mantidas em segredo ou manipuladas.

Mas vamos lembrar primeiro o que vem PRIMEIRO. A criança, na faixa etária de 1 a 2 anos, passa uma fase em que geralmente já anda sozinha, descobre seu ambiente e expressa seus desejos por gestos e por balbucios, ou mesmo por palavras completas. Ela começa a conquistar uma autonomia que exigirá estímulos, mas também limites. Não poderá subir em todos os lugares, nem comer o que quiser e quando quiser, tampouco derrubar, quebrar ou destruir objetos. As primeiras tentativas de se estabelecer o limite podem desencadear uma reação contrária da criança. É a birra ou pirraça, em que ela comumente costuma se jogar no chão, espernear e começar um choro monótono e, muitas vezes, sem lágrimas.

Com o aumento da idade, surgem os companheiros imaginários – tema quase concluso deste artigo ­­– e altera-se não apenas a percepção de si mesmo e das importantes pessoas de referência, mas também destes “companheirinhos”. Falaremos mais, só que mais à frente…

Antes, devemos dar umas últimas palavrinhas sobre o período pré-escolar. Nele, são características as relações embasadas em uma interação física momentânea: “Somos amigas porque nós duas gostamos de brincar de boneca!”. É aqui que surge também o período de imitação: imita-se o adulto, seu comportamento; surge o desejo de brincar de usar roupas e calçados de “gente grande”. Este é um dos termômetros para que se saiba que as maravilhosas portas do faz-de-conta estão abertas. A criança faz de conta que é o pai ou a mãe ao brincar de casinha e bonecas, faz de conta que está falando no celular, faz de conta que está passeando no bosque, faz de conta que está no castelo encantado.

Posteriormente, entre os 3 e 5/6 anos de vida, chegamos numa fase de mais calmaria para os pais e educadores. A sociabilidade está em progresso e a criança depende menos dos seus responsáveis. A agitação do “pega tudo e derruba tudo” passou. O entendimento do uso de símbolos e de conceitos como idade, espaço, tempo, certo e errado, já se aprimora. Este é um período de compreensão muito maniqueísta do mundo, em que as situações, pessoas e bichos são vistos como totalmente bons ou totalmente ruins – não há meio termo [comentei isto inclusive na postagem “Neuronicídio”, falando-se das atitudes de alguns participantes no decorrer do Big Brother]. Nos contos de fadas, a fada é sempre boa, enquanto a bruxa é sempre malvada. O sapo é sempre feio, a não ser quando se transforma em príncipe. O lobo e a cobra são sempre perigosos. A criança não entende, neste período, que os personagens – assim como as pessoas e ela mesma – às vezes são legais, às vezes não, às vezes querem ajudar, às vezes não, e que atributos como a beleza e a feiúra podem ser relativos e ter fundamentos culturais... Nesta idade, a criança está completamente dentro de seu mundo mágico. É a doce fase da infância em que acreditamos em Papai Noel, em duendes, em fadinhas e em bicho-papão de uma forma mais imaginativa. Aqui também costumam aparecer amigos imaginários, pois a realidade e a fantasia freqüentemente se confundem.

Por volta dos 7 ou 8 anos os parceiros recebem e oferecerem ajuda – nessa fase a amizade orienta-se principalmente por vantagens próprias. Mas as crianças já atentam para um relativo equilíbrio de poder: “Eu te empresto minha bicicleta se você me deixar brincar com a sua bola”. Esses relacionamentos são mantidos também com os amigos imaginários.

KY - Amiga Imaginária Curiosamente, os jovens de ambos os sexos escolhem amigas imaginárias com mais freqüência – 75% dos meninos e 61% das meninas – e inventam uma pessoa que se assemelhe a eles em traços essenciais. Rapazes muitas vezes criam uma cópia feminina perfeita de si mesmos, que se assemelha a eles não apenas em idade e aparência, mas também em personalidade. As meninas, por sua vez, criam ocasionalmente parceiras que se diferenciam delas em características importantes.

Com o aumento da idade, traços centrais da personalidade do amigo se modificam – assim como os do próprio criador –, às vezes ele recebe até um novo nome. No entanto, no decorrer da adolescência, os parceiros invisíveis parecem se tornar menos nítidos, adolescentes mais velhos quase não os mencionam. Aliás, escritores de diário foram entrevistados mais uma vez, alguns anos mais tarde, e contatou-se que realmente pouquíssimos conseguiram lembrar-se de seus amigos imaginários! Se o acompanhante imaginário cumpriu sua função, ele aparentemente não só é deixado de lado, mas também esquecido – um sinal de que as crianças conseguiram dar mais um passo em seu desenvolvimento de forma criativa.

 


CONCLUSÃO – O ato da leitura estimula o fantasiar, e vice-versa! São coisas que podem dar estirpe aos amigos imaginários, e são coisas que se educam. Assim como se educa o ato de se apreciar um quadro ou uma escultura dentro de um museu, ou mesmo as árvores de um jardim, educa-se a maneira de ler, a forma de se lidar com o livro, e, por que não, com aqueles amigos, oriundos ou não , incitados ou não, pelos livros? Educa-se, sobretudo, pela interferência do adulto e por seus exemplos na fase que é, para a criança, como já enfatizado, uma fase muitíssimo importante. Diríamos mesmo decisiva, pois a maneira como a criança entenderá o livro e as histórias, neste período, irá acompanhá-la PELO RESTO DA VIDA. Exceto, geralmente, os amigos imaginários. Metaforizo: eles se desvanecem como (e com) o tempo…

 

 



Confira também:


¤ MaDame Lumière – Cinema é meu Luxo. Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are) – 2009 [Filme / Livro];
¤ Ônibus-biblioteca – Roteiro de Leitura. Comentários sobre O Pré-leitor e a Educação do Ato de Ler, por Adriano Messias.

2 comentários :

Hélio disse...

Já tive, quando criança, amiguinhos imaginários. Eram as plantas do quintal da minha querida avó que me ouviam, e participavam, como ouvintes atentos, das minhas aulas que não cansava de lecionar-lhes.E como gostava delas! Como eram atenciosas! Davam-me a atenção que queria e que os adultos não tinham tempo ou talvez não queriam me dar![risos] Adorei o artigo!!!Beijo no coração!

Thúlio Jardim disse...

Valeu por gostar e comentar!

Eu diria que suas plantinhas "agem" de forma tão "humana"... e, desde sempre como as outras, tão desejavelmente quietas! Ouvem-te. Muito mais do que a maioria dos homens. Até parecem que não vivem por elas próprias, altamente altruístas, não podem! Não vivem não crescem, não são por si só, dependem do ambiente e da gente. E há quem não veja, e arruma tempo e joga fora, e não se encanta, nem festeja a beleza de qualquer rosa.

Hoje, o homem tem pressa. O ser realiza demais, e logo depois se decepciona. Quer se tornar realeza ou bem mais, e morre antes de usufruir do seu trono - suas conquistas. Nem sequer se lembra que nas coisas simples, é que se "esconde" a vida. E, diferentemente dos nossos amigos citados, essas coisas... são todas REAIS.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails
Google Analytics Alternative