sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Seriam Nuvens Apenas?

 

A temporada de feriados respeitantes ao natal de 2009 e ao ano novo de 2010 se aproximava, quando eu - em Recife - estava a tomar alguns goles do meu café, como sempre faço durante o expediente de trabalho. A época festiva fora planeada por mim para ser algo doce e alegre, bem diferente dos anos ruins anteriores, que deixaram muito a desejar e se assemelhavam ao acerbo saibo do café quando não é açucarado.

Tinha feito promessas muito poucas, mas não tão fáceis de serem cumpridas! Tinha bolado um acervo de coisas loucas, para dizer aos ouvidos da minha namorada querida… Realmente, ficava feliz só de conjecturar estar ao lado da garota de quem mais amo. Talvez, por isso, o surto de contentamento e o andar absorto eram meus e algo certo de se ter.

De modo inelutável, até de forma que não poderia afirmar que algo ruim não pudesse vir a acontecer…, eu estava solto de mim - exteriorizava o meu olhar de prazer. Havia dado um salto, naqueles minutos, para me achegar numa cidadelha do interior de Pernambuco - local onde vivi por mais de uma década! De sorte, minha velha memória traria o aroma da terra, o sopro do rio Pajeú no peito e a imagem linda do açoutar do sol a bronzear a pele branca e nua, igual à lua, daquela que me deixava de queixo no chão e tirava toda a minha atenção e o meu jeito fuá.

Falar dela é sempre uma felicidade, uma aspiração e inspiração ao mesmo tempo. Porém o assunto aqui será outro. Vou logo acautelando para você que as aparências às vezes enganam, mas chegaremos a este ponto mais adiante, depois que você olhar fixo a imagem a seguir.

 

KY - Nuvens e Vegetação

Quando vejo belas texturas e cores sutis, elas me agitam para fora de uma rotina e são o chamariz da minha criatividade. É quando eu aplico as aurículas para o som da natureza, envolvente, longe daquele ramerrão que acontece no trabalho ou na cidade. Um pouco infundido pelo estro, torno-me mais feliz e me surpreendo bastante com o que eu sou capaz. Não demora, vem um fruto que me exulta. Sai, inevitavelmente, uma poesia bem bonita - chafariz de palavras que diz o que estou a sentir…

E as texturas então dessa primeira imagem?! A impressão que eu tinha era a de estar olhando para a capa de algum disco de uma banda dos anos 70, pintado psicadelicamente… Mas o que é, afinal?

Seriam nuvens apenas? Negativo! Talvez uma fotografia aérea delas ao longo de um manguezal tropical…? Nada! Quem sabe um extremo close-up da textura requintada de uma Lã com Cashmere!? Nananinanão…

Na verdade, tenho vergonha em admitir, isto daí é o que eu encontrei dentro da minha xícara de café que utilizo no trabalho, quando do regresso ao serviço em 04 de janeiro. [Para ser mais franco, foram dois dos meus colegas – Charles e Amara – que encontraram…]

 

KY - Café e Fungos

Verdadeiramente repugnante, e ainda assim belo e estranho.

Eu sei que é superficial a trama. Mas por que é tão surpreendente?! Qual o porquê de tantas cores? Algumas partes são verdes, outras brancas, além do amarelo. E como veio parar aí? Teria vindo flutuando no ar junto à umidade? Ou simplesmente “brotou” de algum ser que já se encontrava lá, de forma inóxia? Não fora assim, acidentalmente, que se deu a descoberta da penicilina? Por acaso, eu estava à beira de promover algum grande avanço na medicina? Difícil de dizer…

Se eu tivesse o tempo necessário para encontrar as respostas para estas perguntas, quem sabe…

A única coisa que sei com convicção é de que se tratava de colônias de fungos. Eu cursei quase 3 períodos do curso de bacharelado em Ciências Biológicas, pelo Centro de Ciências Biológicas – CCB – da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Antes de trancá-lo, tive tempo para aprender a fazer tais culturas. E a época ideal é a presente - a do verão, por causa da temperatura. Um lugar úmido ajuda também…

Os “senhores fungos”, conhecidos ainda como bolores, mofos ou cogumelos, estão interferindo constantemente em nossas vidas. Eles são tão importantes que hoje compõem um reino à parte, lado a lado com os reinos vegetal e animal.

A cultura, quando fazia para fins de estudo pela UFPE, era criada passando um objeto estéril num local já “afetado”, que era friccionado-transferido para as placas de Petri (60 x 15mm). Tal procedimento - chamado de esfregaço - tinha por objetivo fazer o fungo proliferar, dando origem às colônias, para que pudéssemos fazer a identificação.

Por meio de preparações em lâminas e observações ao microscópio nos laboratórios do CCB, identificavam-se os organismos baseado em suas características morfológicas. Após o período de incubação de aproximadamente sete dias, discos com micélio de cada fungo eram transferidos para placas de Petri de 150mm de diâmetro X 15mm de altura (sendo um disco para cada placa) contendo Agar. O crescimento radial do patógeno era analisado em seguida, por períodos próprios. Enfim… 

Agora, iremos à curiosa e jocosa maneira de se improvisar uma cultura de fungos em uma xícara de café, como eu fiz sem querer…


Para fazer sua própria cultura:

Vou avisando que você só vai conseguir criar sua própria cultura de fungos se morar sozinho ou trabalhar em algum local propício para o tal experimento, porque senão vão jogar sua xícara fora antes que ele acabe. Aliás, esse é outro aviso. Você vai perder uma xícara, a não ser que tenha coragem de lavá-la depois para reutilizar. Eu não tive. A minha foi direto pro lixo, e olha que ela era novinha. Um tanto irônico foi o fato de que nela havia estampada a palavra SAÚDE, em japonês. Era tão bonita e grande… num plástico muito resistente - presente da chefe, branco feito porcelana. Tava mais para caneco, razão deu batizar desse modo.

Siga os passos:

  1. Faça uma xícara de café quente em grande quantidade, que é tão necessária para te despertar, principalmente se estiver no trabalho. Ativará os seus nervos enquanto usa o computador…
  2. Já tendo feito, em seguida “esqueça” a xícara de café, como você esqueceria, se estivesse bêbado, de ir para casa ao final de uma farra festa. Aconselho a deixar atrás do monitor, se possível…
  3. Daí se distraia completamente (não veja fotos de mulheres peladas, estamos considerando que você está no trabalho, atenção!), depois  vá viajar, tire uma folga! Deixe-a, “profissionalmente”, por uma semana toda naquele lugar, assim como eu fiz durante os dias 30 de dezembro e 04 do corrente mês, quando estava distante, aproveitando o Réveillon a aproximadamente 500 Km da minha cidade natal, junto a amigos.
  4. “Re-descubra” a xícara de café assim que regressar de viajem e for usar o computador novamente.
  5. Pronto! Depois que você olhar bastante, tire umas fotos e jogue a xícara fora, totalmente esvaziada, do contrário a embrulhe em pelo menos 2 sacos de lixo dos grossos antes de fazer isso. O.K.?

 

 

PS 1:

Eu estava pensando em colocar a xícara de volta, para ver se ela se transformaria em algo ainda mais interessante… mas eu não sou tão corajoso! Fiquei com café-fobia por algum tempo, foi um baque, contudo não durou mais que uma semana. Não se assuste com isto, pois não significa que contigo acontecerá o mesmo problema. E se houver, confio que será só por um período curto, bem menor que o meu…

 

PS 2:

Este acontecimento me fez lembrar ainda algo hilário que aconteceu faz quase 10 anos, quando eu morava na casa de um tio, aqui em Recife, no bairro de Boa Viagem. Simplesmente a minha empregada (que eu não gosto de chamar assim, pois é como já se fosse da família…) encontrou um queijo com fungos na geladeira dele e jogou, de imediato, fora!

O que ela não sabia é que se tratava de um Roquefort, uma variedade de queijo originalmente francês, produzido com leite de ovelhas e de massa com consistência cremosa e esfarelada, com casca úmida e sabor acentuado e picante. Queijo o qual, diga-se, é fabricado tal como o das variedades Gorgonzola e Camembert, injetando-se fungos (bolores) na massa, neste caso os do tipo Penicillium, que passa, a seguir, por um processo de maturação de três meses.

São estes fungos que desenvolvem no Roquefort a aparência característica com veios verde-azulados, que lhe dão um gosto especial. Pena que ela não sabia deste detalhe, e mais chato ainda o fato de o preço dele ser acentuado assim como o seu sabor…

 


KY - RSS, Café e Jornal

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