quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Perfil Completo do Kara Ystúpido: "O Homem Mais Triste do Mundo".


“[...] Ele sabia de sua tristeza e apenas ele podia dizer com absoluta certeza, que era uma tristeza importante. Que ninguém mais sentira, pois ele decidiu toma-la para sempre consigo mesmo. [...]”



O texto a seguir é uma mescla de estória e definição do perfil do Low mais completa, não necessariamente nesta ordem. Assim vocês poderão conhecer quem é este que é o meu melhor amigo. Vou falar em primeira pessoa, como se fosse o próprio! Para ser franco, ele está adoentado e por esta razão ficará sem escrever - exceto para comentar algumas postagens como esta daaui - até a chegada de sua convalescença, pelo menos. Assim, espero que todos gostem, pois tudo fora uma adaptação – acredito que bem-feita! – de O Homem Mais Triste do Mundo. Vamos lá:



KY - Cabisbaixo Olá, meu nome é Low. Não tenho sobrenomes. Nem pai nem  mãe, nem filhos! Embora eu já os tivesse visto. Faz tanto tempo… que eu nem me recordo bem como eram seus rostos. Lembro do meu: pálido, franzino e franzido. Era esquivo, preocupado e bastante tímido... Com um ar frio de quem talvez tivesse nascido num pólo extremo do planeta ou estivesse morando lá, do lado. Andava curvado, como se carregasse um daqueles pianos grandes sobre as costas, pequenas… Fora esta uma das metáforas que o psiquiatra da capital usou e que eu reutilizo aqui. Acho que foi o único acerto que ele conseguiu em vida, não tivemos muita tempo para intimidades, prum maior contato ou colóquio. E, pelo pouco que percebi, ele era um estúpido, se não… um louco. Provocava-me com suas atitudes, aguilhoando em mim o absentismo e um graúdo pessimismo. Este último, muito presente nele, supliciava-me numa guilhotina de pensamentos cortantes de tão tristes. Aquele homem... (era “aquele” por ser distante) nem perto era inteligente e nem de longe parecia educado. Sinceramente, o inferno não podia ser pior que estar com ele, que se achava um convicto santo! Andava manco como se tivesse tropeçado num passado longínquo e até hoje não tivesse se recuperado. E era triste, o homem mais triste do mundo e desesperado, depois de mim.


Entretanto, com a maioria dos outros não era assim. Tanto ele, ao agir bem no tratamento destes, quanto eu... falando-se da acolhida que certas pessoas “comuns” tinham para comigo, ao me ouvir com mais atenção e empatia. Eram meus verdadeiros terapeutas. Com eles, não existia impessoalidade na psicologia, afinal, de que me serviria? Razão porque larguei de vez este negócio de pagar para quem não me distribui conhecimento útil, só me aliena...


O fato mais estranho sobre mim, este ser pálido, esquivo e franzino, de um ar frio e tanto, não era a tristeza ou o fato de ainda estar vivo com ela, mas sim o que ela causava nas pessoas. Ao contrario do que muitos pensariam sobre o homem mais triste do mundo, seu fardo - a tristeza - era na verdade um dom para com os demais ao seu redor. Todos aqueles que tiveram ou terão contato com minha tristeza são ou serão imediatamente tomados por uma majestosa, pacifica e bela felicidade. Transbordante e magnífica, dessas que toda criatura viva no planeta chora e agradece a Deus pela benção dada.


Aí está a grande questão: somente os que tiverem contato comigo, pelo menos um mínimo contato, seriam repletos de contentamento. Certamente o psiquiatra da capital, tamanha era sua ignorância, não notara que estava tão próximo de deixar a infelicidade que estava contaminando a sua pele e a de seus falantes, isto é, pacientes. E realmente tinha de ser paciente, muito paciente…, com aquela criatura desatenciosa.


Era um dom raro o meu [e ele nem percebeu…], desses abençoados, cuja qualquer explicação racional não seria capaz de nivelar sua grandiosidade ao escracho, propriamente dito. Era ao mesmo tempo uma maldição, terrível e trágica, como qualquer outra imposta de algum conto de fada. Era estranho e paradoxal, um desafio lógico a ciência e a humanidade. Era acima de tudo a minha vida e era dessa forma que eu vivia todo dia, sendo triste e fazendo os outros felizes.


Para quem muito sabe, ainda não há uma resposta para esse fenômeno. Entretanto ninguém quer pensar muito sobre o assunto, porque deveras, ninguém é insano de arruinar sua própria felicidade, com alguma resposta. A ignorância era sábia. A ignorância era uma virtude. E era com essa ignorância que todos encaravam aquela situação. Vez ou outra, aparecia alguém que desafiava essa ignorância e piedosamente tentava animar o homem mais triste do mundo, mas toda vez que se aproximava dele, sua ALMA BONDOSA (ressalte-se) era tomada por um espírito supremo de felicidade e todas as dúvidas da vida, tristezas, agonias e dores sumiam magicamente, e então ela se esquecia de seus propósito e apenas sentia-se feliz.


E longe da capital, onde o homem mais triste do mundo vivia, existia a cidade mais feliz do planeta. Não havia corrupção, ganância, intolerância. Nem mesmo assassinos, estupradores ou qualquer outra anomalia da sociedade. Havia apenas e apenas a felicidade. Todos eram felizes - com exceção, claro, do homem mais triste do mundo -, e ninguém queria mais nada.


Toda a felicidade do mundo, toda aquela felicidade que ninguém jamais alcançou, aquela felicidade que nenhuma palavra poderia ser capaz de transmitir ou explicar, fazia com que aquela cidade, além de um lugar completamente feliz, fosse um lugar também quieto e extremamente parado.


Ao longo do tempo todos os habitantes da cidade – com exceção, claro, do homem mais triste do mundo – se tornaram seres incapazes de andar, mover, pensar ou agir. Estavam inertes. Não por alguma deficiência, mas sim, porque para eles não havia objetivo nenhum em fazer tais coisas, uma vez que tinham atingido a suprema felicidade! Para que trabalhar se eu estou feliz? Por que andar ou comer se já estou feliz? Por que fazer qualquer coisa se toda nossa busca por felicidade havia se completado? A felicidade era assustadora.


Enquanto todos eram felizes, eu o homem mais triste do mundo continuava em sua andança, quase que como um eremita no deserto urbano que a cidade se tornou, quase como um profeta apocalíptico no deserto urbano que a cidade se tornou. Andava apenas curvado, manco também e triste. Severamente triste, como ninguém. O homem caminhava totalmente alheio à situação por ele ocasionada. Apenas ele sabia o quão importante era a tristeza e por isso caminhava. Ele não conhecia felicidade. Ele nunca sequer viu alguém sorrir em sua vida, pois nunca levantava a sua cabeça. Ele sabia de sua tristeza e apenas ele podia dizer com absoluta certeza, que era uma tristeza importante. Que ninguém mais sentira, pois ele decidiu toma-la para sempre consigo mesmo.


Contudo, houve um dia em que algum individuo na multidão entendeu o problema da cidade e com brusquidão lhe ocorreu a idéia da importância da tristeza. Porém antes que pudesse avisar alguém, bem antes que pudesse fazer alguma coisa, o homem mais triste do mundo passou perto dele…




FIM 

 

Por Thúlio Jardim em nome de Low. O original é de Maycon Batestin.

 
 

6 comentários :

Anônimo disse...

Ei cara, muito legal este espaço aqui! Vc descobre cada coisa, né? Vc tá escrevendo cada vez melhor. Parabéns!!! Juliano

Low disse...

Juliano, colega, obrigado pela visita! Perceba que logo acima dos marcadores há uma carta com uma seta, quando você clica nela é possível passar facilmente pra qualquer amigo seu o link direto desta postagem. E eu, obviamente, agradeceria mais ainda...

Como sou novo no Blogger, também não sei se é possível eu responder o seu comentário diretamente a você, não tô achando a opção. Sendo assim, respondo-lhe agora com outro comentário dentro deste post. Abraço!

Hélio disse...

Vygotsky disse uma vez que o pensamento é como uma nuvem que derrama uma chuva de palavras.E parece que essa nuvem estava sobre vc quando escreveu este texto. Perfeito! "um eremita no deserto urbano..." assim que sinto-me, às vezes! Lindas construções metafóricas!O texto é rico em caracteres realistas,as entrelinhas são deliciosos receios de atualidade, de emoção, de sentimento,de experiências re-significadas, re-construídas,re-desenhadas.Que orgulho de ter um amigo que escreve assim!!Numa palavra: LINDO!

Low disse...

Hélio, você é mesmo sensacional! A cada dia que passa, mais fortes ficam os nossos laços de amizade. Sua descrição deste post é sem igual. Se eu estava sob uma nuvem que derramara uma chuva de palavras quando desta escrita, você veio com um magnífico arco-íris, colorindo todas!

Maycon Batestin disse...

bem cara, não te conheço ainda, te achei me auto procurando na net, e considerando que a tristeza é um fator importante para o equilibrio da humanidade, achei seu blog muito interessante. parabens.

Low disse...

Uhauha... Às vezes também me "auto-procuro"! Não sei se existe esta palavra, se não, então fizemos um neologismo.

A questão é que a idéia do equilíbrio foi o que mais me fascinou no seu texto, Maycon. Tive o atrevimento de alterá-lo em algumas partes, para se encaixar melhor ao contexto do Blog. A dor, a solidão, a tristeza... são cenestesias de fato, estão incorporadas em nós em menor ou maior grau. Por isso, é preciso se premunir ante a elas, para evitar que ultrapassem o tolerável.

Um dia todos nós passaremos por ambas as fases. Quando a segunda chegar, o importante é fazer com que ela seja, como disse, "suportável"...

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