sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Melhor O Fenecer!


“[...] Quando a velhice efetuar sua presença amarga, com ela muitas vezes vêm doenças, não raras que te matam. Fazer o quê?… Tornar-te afeito ao fato deste já! [...]” (Thúlio Jardim)


Oi, meu nome é Thúlio Jardim. Eu sou o melhor amigo do Low e também escreverei aqui com certa freqüência. Talvez vocês até se confundam, sem saber quem é que está a redigir em determinado momento, afinal eu e meu amigo somos demais parecidos…

Ontem, o meu tempo foi abreviado. Um tanto frenético, para ser mais direto. Meus pais chegaram de viagem do interior, e a primeira coisa que tive de fazer foram as malas. Não, meu caro, não saí de casa… embora não negue que seria até uma boa, naquela sazão! Fora necessário, pois no meu quarto a minha bagagem ainda estava intacta, desde o Réveillon, há mais de duas semanas atrás. Pode parecer inacreditável, ratificação da minha ampla preguiça. Contudo, vejo por outros termos. Apenas não havia razão deu organizar minhas coisas, elas estavam todas em cima da minha cama e, entretanto, nada me impedia de dormir tranqüilo.

A minhas roupas, algumas soltas, também se encontravam junto a objetos e acessórios de valor sentimental. Como meu irmão caçula - aquele sortudo! Estando de férias, não se aquietava em casa um segundo, o quarto dele já era minha posse desde o início deste mês. Enfim, realmente não havia motivos mandatórios para eu pôr as roupas no armário. Até a chegada dos meus pais ocupando o quarto onde eu estava, infelizmente…

Quando finalmente terminei, vi entre uma calça jeans e uma camisa, um debuxo de um texto. Já havia até me esquecido que, pasmosamente, tinha feito algo no dia 01 de janeiro, ainda lá no marasmo da minha cidade… aquela dos tempos da infância. Tentando, nisso, representar o lema que sigo de “corpo velho, mente jovem”. O título, bom… é o que transcrevo a seguir, e permanece idêntico ao que estava de lápis no rascunho amarfanhado:


KY - ''Corpo Velho, Mente Jovem''


MELHOR O FENECER!
(Thúlio Jardim. 01 de janeiro de 2010.)


Tropologicamente, é possível ser sempre jovem, basta querer, foi o que ouvi por aí sem tropeços… Mas, amigo, ser sempre jovem para quê? Não é normal envelhecer?! E se o que me apraz seja apenas viver mais, de maneira plena e talvez discreta, o que me resta e o real? Será que meu pensamento te embaraça?! Os planos que o Senescal traçou há tanto tempo não são outros, nunca foram poucos, e outrora a eternidade virá para mim. Singelamente, sem festa solene ou confetes, é tudo igual (para todos!) no fim. Eu não sou o único com destino “ruim”… compartilho contigo o mesmo papel neste desenho.

Senectude não é o mesmo que decrepitude! E aquela não deveria ser infelicidade para ninguém. Se bem… que concordo que com a idade vêm dificuldades e estas podem trazer dilemas. A questão é sua atitude diante deles, para evitar a nescidade. Pois mesmo que você seja um jovem agora a me ouvir, o seu abril passará também. E ainda que isto demore, o seu presente não traz a certeza de que a tristeza não decorrerá perversamente. Não a descarta! E quando o inverno chegar, maiores problemas surgirão na sua casa, além de tristezas… Quando a velhice efetuar sua presença amarga, com ela muitas vezes vêm doenças, não raras que te matam. Fazer o quê?… Tornar-te afeito ao fato deste já! Isto é uma necessidade.

Dá certa raiva, não? Até brota com força e é fidedigna, por ser resultante do desconhecido que não só choca, como devora o que for fleuma. As cartas que Ele lança na mesa são postas com inteligência, perto ou à distância, não representam apostas sem fundamentos. Saiba disso… Às vezes, são penas que para nós tem um sentido – a expiação que tira a paz, traz seu lado bom igualmente. Todavia saiba sem com isso deixar-te a ser guiado pelo acaso. Erija as pontes para transpor o que se tornar um obstáculo. Tudo servirá para nos ajudar a ser alguém capaz de entender a vida. Melhor o fenecer! Da tolice que se enraíza, da santa ignorância, da bendita estultícia…

Por que o afastamento deste viço tende a ser visto com uma capa de tormento? Se a chegada da vetustade tem lá seu alento!? Nela, a experiência nos aguarda, se faz tocante. A sabedoria nos alcança, é fascínio, mas não significa que fácil. Ah, e a mente! Deixa as lembranças sempre nos guiando para frente. Se fôssemos apenas crianças, imagine-nos sozinhos e sem rumos… Fuçando o escuro deste mundo… Não teríamos prumos e estaríamos certamente em apuros. Nessa vastidão, completamente indefesos.

4 comentários :

Anônimo disse...

Thúlio! Sou Eduardo Araújo. Gostei bastante do que escreveste... Palavras bem colocadas. Bem estruturadas... Uma linha de raciocínio sábia e profunda. O tom filosófico nos remete á necessidade de refletirmos sobre a questão da extrema valorização de uma " juventude " aparente e eterna. Á qualquer custo. De qualquer maneira... Uma Grande Fuga da realidade. Daí a busca complusiva por cirurgias plásticas , botox e seus derivados. E o "conteúdo " , onde fica? E o que a idade agrega ao indivíduo ? A sabedoria vem com o Tempo... E o Tempo , tem sua razão de ser. Se não houvesse aprendizado com o passar da juventude á maturidade, Deus não teria decidido que fosse dessa forma. É a vida , meu caro! É a Vida!

Low disse...

Eduardo, muito pertinente o teu recado. O "conteúdo" cada vez mais vem sendo posto a escanteio. As pessoas se tornando mais ainda estúpidas, por ter uma visão constante de valorizar o que inevitavelmente muda. A beleza não é eterna. Quantas e quantas vezes já me chamaram de magro, porque minhas pernas ou braços não eram torneados, musculosos? E quando a gente engorda? Quantos "espelhos" para nos dizerem que devemos emagrecer, como se nós fôssemos cegos!? São todos, eu grito, UNS RETARDADOS! Espelhos ambulantes, apenas isso.

Hélio disse...

Seus textos sempre são deliciosos.Gostei demais do assunto tratado, talvez porque já veja no espelho marcas, muitas marcas do tempo nos meus cabelos [risos] e me senti um tanto quanto alentado quando li seu texto! [brincadeira]Parabéns por tratar de uma assunto tão caro com todo o respeito e com a propriedade de sempre, marcas de seus textos."senectude não é o mesmo decrepitude" Perfeito! Trabalhou a acepção dos dois vocábulos com maestria.Sou teu fã!!

Low disse...

Senectude não é o mesmo que decrepitude, caro Hélio. Muito embora saibamos que, às vezes, com a primeira advém a segunda. A separação ainda assim é muito clara, enfática! Tal como há indiscutível abismo entre a perspicácia e a estultícia...

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails
Google Analytics Alternative