domingo, 17 de janeiro de 2010

Ai de ti, se esqueces o Haiti…

KY - Charge JC, 17 de Janeiro

O Haiti, onde fica? Não é só aqui nem acolá. Encontrando-se, hoje, em todo lugar… Incorporou-se à humanidade, convertendo-se em dever moral. Era um caos até esta terça-feira (12) à noite, e agora o terremoto o tornou algo pior. Um inferno de magnitude 7 que assolou a região e, apesar deste título, veio para ser na verdade um traço de união entre os 7 continentes – subdividindo-se aí a América em América Latina e América Anglo-Saxônica. O primeiro passo dado, foi por Raul Castro e Barack Obama: Cuba autorizou vôos americanos no seu espaço aéreo em missões de evacuação e socorro às vítimas da catástrofe. Pois há ainda muitos feridos e gente presa sob os escombros. E os que não estão nesta situação precária, mesmo assim sofrem pela falta de alimentos e medicamentos/assistência médica, além de continuarem muitos sem suas moradias. Contabiliza-se cerca de 3 milhões de desabrigados!

Em termos de segurança, a situação do o Haiti é tensa, porém está sob controle. No geral, as pessoas de lá agem de maneira muito digna e calma. Pode ser que aconteçam alguns saques, mas, até agora, as tropas da Minustah, pelo que se sabe, estão conseguindo manter a ordem. O que se insta é toda a ajuda que se queira prestar. Sem luz elétrica, água potável, comida, muitas vezes sem ter o que vestir além da roupa do corpo e sem ter para onde ir, é grande a tristeza. O enleio diante da desgraça que se formara, deixou-nos atentos ao que antes era alheio… mesmo aos olhares mais aplicados. Para acudir tamanha tragédia, os governos, as autoridades internacionais, as organizações não governamentais e os cidadãos de todo o mundo se juntaram, movidos pela compaixão, pelo sentido de responsabilidade política e por imperativos éticos e morais.

Nos escombros da capital haitiana, nas valas comuns onde estão sendo enterradas milhares de vítimas, neste planeta fragmentado e acabrunhado por confrontos intermináveis ressurge o indício da aproximação. Uma aproximação sem pré-condições, sem negociações, sem política e artimanhas ideológicas, feita no impulso da solidariedade! Solidariedade é um antídoto para a dissensão, ressentimentos… é sentimento mais efetivo, eficaz e, sobretudo, mais justo do que caridade e comiseração. Afinal, não adiantaria só a esmola ou a lástima, é preciso e precioso o empenho no socorro urgente. Indispensável a solidariedade, precipuamente! Porquanto ela não hierarquiza, iguala… faz da doação um processo mútuo. Autoestima multiplicada. Serve às religiões, aos crentes e descrentes, devotos e céticos. Resulta em repulsa auto-extinta, diante à pobreza. Somente aos fanáticos, a solidariedade crescente e qualquer tipo de reciprocidade abominam.

Já era merecida uma pausa em nossa atribulada desatenção para com o povo daquela paragem. Sem remoques, estou sendo bastante direto! Muitos de nós recusamos recusávamos a presença daqueles habitantes em nossa paisagem, os vendo como um estorvo ao progresso e, se fosse para nós possível, a reboque os levaríamos para outro local – o mais distante, longe do alcance do globo ocular humano.

O Haiti, muito embora estando no hemisfério norte, permanece um dos países mais pobres do planeta e com uma das maiores densidades populacionais, sendo 90% de sua população de ascendência africana. De tal forma que não é mais concebível desconhecer a trágica condição vivenciada no passado, de miséria e violência, e a imagem que se compusera atualmente, dos destroços, da falta de indústrias e infraestrutura, da carência de lideranças políticas e da sujeição à tutela de outras nações, que nos salta na tevê - em tempo real - e desperta nações entorpecidas para o que deverá ser uma das mais dramáticas operações de salvamento de nove milhões de seres humanos.

A imagem, feita de sangue e lágrimas, está aí, ao vivo, reabrindo feridas de uma história sinistra que começou no século 16, quando uma parte da população nativa foi escravizada e outra morta pelos “conquistadores”. O Haiti, antes, fazia parte de um universo de países riscados do mapa, quase inexistentes. Mas a tragédia inverteu a situação. Nos tocou a todos, e não estou sendo redundante. Quem ainda não ouviu falar deste país?… Realmente, certas coisas que nos atormentam ou atormentavam se tornaram menores, até insignificantes, diante de um mal tão grande como o que golpeou aquele local.

Por fim, pergunto-me por que raios (ou seriam terremotos!?) não antes cuidamos de maneira preventiva desta parcela já tão excluída de “criaturas”? Por que razão se deixam as coisas chegar a tal ponto, apesar destas terem sido oriundas, não neguemos, de um tremor de terra? Será que não nos esquecemos de cooperar também, e por isso sobra-nos a culpa? Você poderia imaginar que a problemática existente lá, seria um tanto menor se fosse aqui? E o que aconteceria novamente, se você, depois de alguns meses, simplesmente se esquecesse do Haiti? Aí de ti, se esqueces! É disparatado! Porque o fato de nós não prevermos a fúria da natureza, não significa que não devemos nos premunir para que as suas conseqüências sejam menos desastrosas… Nem que devamos pôr de lado os mais necessitados!

 

Thúlio Jardim. Recife, 17 de Janeiro de 2010.

 

 

Referências: Jornal do Commercio, dias 16 (em Opinião Editorial) e 17 de janeiro (Opinião, texto “Onde fica o Haiti”, de autoria do jornalista Alberto Dines).

Imagem: A charge representativa do que escrevi, fora tirada do portal do sistema JC de comunicação, estando rubricada por Ronaldo.

 


 

KY - Mapa do Haiti

PS 1– A situação vai mudando com o passar dos dias. O que escrevi acima reflete o que acontecia no Haiti até a data assinalada – 17 de janeiro. Uma informação mais atual e extremamente medonha, ao ponto de parecer surreal, está bem apresentada no link abaixo. A reportagem é da Edição Veja 2149 / 27 de janeiro de 2010, no especial: “Haiti, do caos a esperança”.

O caos depois do desastre “[…] As grandes catástrofes têm um aspecto surreal. O que é mais necessário parece óbvio: água, comida, energia, socorro médico. De repente, alguém pensa: dinheiro também, como a sociedade vai se manter sem ele? […]”


PS 2 - Completando este artigo, eu publico ainda um vídeo, mais um link interessante com parte do seu respectivo texto – escrito em 14 de janeiro – no blog de Aloisio Milani. Assim, espero que entendamos um pouco mais o que aconteceu/acontece no Haiti:

Haiti e o “estado de sítio” permanente “Não foi só ontem, não é só hoje. O Haiti vive um ‘estado de sítio’ constante. Quando não ‘treme’ pela pobreza extrema – aqui entendida como desemprego epidêmico, fome crônica e a ausência de saúde e educação públicas -, é a vez das crises políticas e das tragédias naturais: tempestades tropicais, enchentes e furacões. [...]

[...]

Porto Príncipe já possuía uma infra-estrutura precária. Energia elétrica era luxo. Quem tinha convivia com apagões diários. A distribuição de água era feita, muitas vezes, por caminhões-pipa e fontes de água. Em bairros inteiros, a população se abastecia com baldes. […]”


* Cité Soleil - É um bairro símbolo da violência no Haiti. Tem 300 mil sobreviventes, aproximadamente. Gente que, quando consegue uma refeição diária, já agradece. Rotina mesmo é não ter nenhuma…

Antes disso, ainda na ausência de tudo, haitianos de fé inquebrantável rogavam o dia em que pudessem ter ao menos uma igreja, no alto da montanha. Até tinham, mas o único templo na quase inacessível vila de Espinázia, a duas horas de Porto Príncipe, era de madeira e lona. Um vento mais forte já interrompia o culto. A idéia de levantar uma igreja tinha partido do chamado “núcleo evangélico”, grupo formado por militares protestantes que integrava o contingente do Comando Militar do Nordeste (CM-NE) na missão. Hoje, um ano depois de construída, a igreja continua lá – resistiu ao terremoto. E é a expressão da felicidade e o agradecimento de um povo, que teve um de seus sonhos concretizado.

4 comentários :

Anônimo disse...

É mesmo lamentável a situação de nossos irmãos do Haiti... Haja sofrimento ! Teu texto é bastante preciso e mostra que , ás vezes, uma grande tragédia , serve para " aproximar " as diferenças... É na dor que os ricos e os pobres se reconhecem irmãos de jornada. Da Jornada terrena.É na hora da perda que muito se " acham " e redescobrem dentro de si , o que é SER Humano. Esse sentimento que muitos pareciam ter esquecido. O SER bom , solícito, disponível . SER solidário á dor alheia só reforça o elo que nos liga ao nosso Criador. Uma tragédia tão grande , como essa do Haiti , nos remete á máxima do "repartir o pão" num sentido bastante amplo . De substituir o EGOÍSMO pelo ALTUÍSMO. De repensar o individualismo que o capitalismo nos impõe. De saber que se é muito mais " rico " , quando se tem na consciência , a certeza do dever cumprido. De que se fez o melhor por seu semelhante. De que deu o que há de melhor em si : Seu amor ,suas ações efetivas para o progresso dos que sofrem. Suas palavras de alento , seu tempo para o outro. Essa riqueza , que é a Real , é muito mais valiosa que a riqueza material, ilusória. Riqueza que muitas vezes , é provacional. Que nos testa e nos derruba , se formos corrompidos pela ambição e pela avareza. É chegada a hora de acordarmos! O terremoto veio para "Sacudir" nossas consciências e para nos alertar da necessidade de nos empenharmos mais em prol dos desfavorecidos deste mundo. Afinal , estamos no mesmo barco. Num grande barco chamado Terra.
( Eduardo Araújo)

Low disse...

Este foi um excelente texto, Eduardo. "De saber que se é muito mais 'rico', quando se tem na consciência, a certeza do dever cumprido", acrescentou muito ao que escrevi! Foi tão consútil conteúdo, que nada mais precisaria dizer. Parabéns!

Hélio disse...

Brilhante e elucidativo texto, Thúlio.Parabéns, um trabalho jornalístico.Sem comentários!

Thúlio Jardim disse...

Nem venha, Hélio. Jornalista, eu? Não bastou todos os outros títulos que me deu, não?! Hahaha...

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